Quero Ser Filósofo https://queroserfilosofo.com.br/ Analisar e escolher, não o contrário. Fri, 09 Feb 2024 00:13:40 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://i0.wp.com/queroserfilosofo.com.br/wp-content/uploads/cropped-QueroSerFilósofo-ICON.png?fit=32%2C32&ssl=1 Quero Ser Filósofo https://queroserfilosofo.com.br/ 32 32 Se eu morrer novo, https://queroserfilosofo.com.br/se-eu-morrer-novo/ https://queroserfilosofo.com.br/se-eu-morrer-novo/#respond Fri, 09 Feb 2024 00:13:37 +0000 https://www.queroserfilosofo.com.br/?p=754 Se eu morrer novo,Sem poder publicar livro nenhum,Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressaPeço que, se se quiserem ralar por minha causa,Que não se ralem.Se assim aconteceu, assim está certo. Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.Mas eles não podem ser …

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Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva —
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra coisa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão —
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

Fonte:
“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). – 85.

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Webquest Contratualistas https://queroserfilosofo.com.br/webquest-1/ https://queroserfilosofo.com.br/webquest-1/#respond Thu, 30 Sep 2021 14:09:20 +0000 https://www.queroserfilosofo.com.br/?p=707 Introdução / Tarefa / Processo / Avaliação / Conclusão Esta WebQuest foi desenvolvida para alunos do 2º ano do ensino médio da Escola Estadual Professor Theotônio Vilela Brandão e pode ser adaptada para outros contextos, turmas e escolas. Introdução Por que seguimos as regras que seguimos? A resposta a essa pergunta não pretende ser esgotada, …

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Introdução / Tarefa / Processo / Avaliação / Conclusão

Esta WebQuest foi desenvolvida para alunos do 2º ano do ensino médio da Escola Estadual Professor Theotônio Vilela Brandão e pode ser adaptada para outros contextos, turmas e escolas.

Introdução

Por que seguimos as regras que seguimos? A resposta a essa pergunta não pretende ser esgotada, mas alguns filósofos modernos podem dar uma dica porque fazemos isso. Por que você não tenta descobrir alguns caminhos para essa resposta?

Tarefa

As democracias constantemente passam por crises e parte de crises são agravadas pelo não entendimento da relação entre povo (enquanto indivíduos políticos) e Estado/Governo. No intuito de divulgação educacional comunitária, a associação do bairro solicitou a vocês, renomados estudantes, um documentário que será exibido no próximo encontro da comunidade.

Para isso, deverão elaborar um vídeo com 10 a 15 minutos de duração, relatando as conclusões obtidas a partir do relatório e entrevistas desenvolvidos sobre a temática.

Processo

Os grupos deverão ter no máximo 4 integrantes. A duração total da WebQuest será de aproximadamente um mês (levando em consideração que o assunto já teria sido abordado em sala de aula). Esse tempo será dividido entre as seguintes etapas:

a) Realizar uma pesquisa teórica sobre Contrato Social utilizando o material de apoio disponibilizado ou outras fontes se o grupo achar necessário.

b) Realizar uma entrevista com a população sobre o tema, considerando os seguintes tópicos:

  • Por que você segue as regras do governo, de trânsito, do município, do bairro, etc.?
  • Você acha que somos plenamente livres em sociedade?
  • Você acha que a população tem autonomia para fazer suas leis?
  • O que você entende por democracia?

c) Elaborar um relatório escrito, que deverá conter:

  • Introdução ao assunto (o que é a teoria do Contrato Social? Quando surgiram as Ideias? Quem são os principais autores)
  • Quem são os principais filósofos que tratam a respeito do tema?
  • Quais são as ideias de Estado de Natureza dos principais autores envolvidos?

c) Elaborar um vídeo com duração de 10 a 15 minutos, apresentando as conclusões obtidas pelo grupo.

Material de Apoio

Contrato Social: existe um acordo entre Estado e sociedade? <https://www.politize.com.br/contrato-social/>

Contrato social. <https://pt.wikipedia.org/wiki/Contrato_social>

Contratualismo. <https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/contratualismo.htm>

Contratualismo: como surgiu a teoria que deu origem ao contrato social <https://www.suno.com.br/artigos/contratualismo/>

Os Contratualistas em questão: Hobbes, Locke e Rousseau. <https://www.redalyc.org/journal/934/93453803002/html/>

O Contrato Social: Hobbes, Locke e Rousseau. <https://ensaiosenotas.com/2018/03/02/o-contrato-social-hobbes-locke-e-rousseau/>

Rousseau e o contrato social. <https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/rousseau-contrato-social.htm>

Curiosidades sobre Contratualistas. <https://youtu.be/rsL4yjGnD4k>

Resumão sobre Contratualistas. <https://youtu.be/ikA1we0NgCA>

Avaliação

A avaliação será feita de acordo com o desempenho do grupo, sendo realizada pelo professor (85%), pelos colegas de turma (10%) e por auto-avaliação (5%), totalizando 100%.

Será atribuído a cada etapa a seguinte pontuação, tendo como total 100 pontos:

EtapaPontuação
Relatório20
Documentário40
Participação e integração com o grupo10
Apresentação15
Avaliação dos colegas de turma10
Autoavaliação5
Total100

Para avaliação dos colegas e autoavaliação deve-se seguir a seguinte tabela:

Aspectos a se considerar para análise do documentário e apresentaçãoPesoPontuação (0 à 100)
Conteúdo do documentário (todos os tópicos solicitados foram abordados?)40
Coerência (houve contradição entre os membros do grupo?)25
Clareza (a apresentação do assunto foi clara?)20
Tempo (o grupo excedeu ou não o tempo limite?)5
Participação (todos os elementos do grupo participaram da apresentação?)10
Total

Conclusão

A participação ativa da sociedade por meio da educação está sendo cada vez mais demandada pela sociedade. Décadas atrás, os nomes que apareciam na ponta da língua do cidadão costumavam ser de jogadores de futebol. No entanto, hoje, nomes de juízes, deputados, vereadores, pessoas envolvidas politicamente de uma maneira geral substituem grande parte desses nomes das conversas do cotidiano.

A construção de um país mais justo passa pela sofisticação do debate político público e entender as principais teorias que estão por trás da política é um passo em direção do bem estar social.

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Torso arcaico de Apolo https://queroserfilosofo.com.br/torso-arcaico-de-apolo/ https://queroserfilosofo.com.br/torso-arcaico-de-apolo/#respond Mon, 26 Oct 2020 01:46:29 +0000 https://www.queroserfilosofo.com.br/?p=662 “Archaïscher Torso Apollos” de Rainer Maria Rilke. "Novos poemas dos novos poemas". Obras Completas. Frankfurt, 1926.

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“Torso arcaico de Apolo” de Rainer Maria Rilke. “Novos poemas dos novos poemas”. Obras Completas. Frankfurt, 1926.

“Archaïscher Torso Apollos” von Rainer Maria Rilke. “Der neue Gedichte anderer Teil”. Sämtliche Werke. Frankfurt, 1926.

Não sabemos como era a cabeça, que falta,
de pupilas amadurecidas. Porém
o torso arde ainda como um candelabro e tem,
só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

Wir kannten nicht sein unerhörtes Haupt,
darin die Augenäpfel reiften. Aber
sein Torso glüht noch wie ein Kandelaber,
in dem sein Schauen, nur zurückgeschraubt,

e brilha. Se não fosse assim, a curva rara
do peito não deslumbraria, nem achar
caminho poderia um sorriso e baixar
da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

sich hält und glänzt. Sonst könnte nicht der Bug
der Brust dich blenden, und im leisen Drehen
der Lenden könnte nicht ein Lächeln gehen
zu jener Mitte, die die Zeugung trug.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
pedra, um desfigurado mármore, e nem já
resplandecera mais como pele de fera.

Sonst stünde dieser Stein entstellt und kurz
unter der Schultern durchsichtigem Sturz
und flimmerte nicht so wie Raubtierfelle

Seus limites não transporia desmedida
como uma estrela; pois ali ponto não há
que não te mire. Força é mudares de vida.

Und bräche nicht aus allen seinen Rändern
aus wie ein Stern: denn da ist keine Stelle,
die dich nicht sieht. Du mußt dein Leben ändern.

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Perdoando Deus https://queroserfilosofo.com.br/perdoando-deus/ https://queroserfilosofo.com.br/perdoando-deus/#respond Tue, 29 Sep 2020 11:44:10 +0000 https://www.queroserfilosofo.com.br/?p=644 Com sua linguagem peculiar e característica, Lispector passeia pelo Rio de Janeiro e se vê Mãe de Deus. Em um fantástico monólogo que vale a pena ser lido, Perdoando Deus é uma profunda reflexão filosófica, deixando de lado a exegese acadêmica que afasta a filosofia da realidade.

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Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade. Não era tour de propriétaire, nada daquilo era meu, nem eu queria. Mas parece-me que me sentia satisfeita com o que via.

Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho, mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo, e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.

E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.

Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admito e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado podia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.

Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.
. .mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.

É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa.

É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato.

Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.


Fonte:
LISPECTOR, Clarice. Perdoando Deus. In: Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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O Grêmio ou Metafísica do Ressentimento https://queroserfilosofo.com.br/o-gremio-ou-metafisica-do-ressentimento/ https://queroserfilosofo.com.br/o-gremio-ou-metafisica-do-ressentimento/#respond Mon, 22 Jun 2020 23:24:28 +0000 https://www.queroserfilosofo.com.br/?p=602 Um diálogo com Machado de Assis.

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“Quem é esta que sobe do deserto, firmada sobre o seu amado?” Repetiu três vezes seguidas a pergunta de Machado. A resposta não fora suficiente. Mas não está só. Como se recusasse o Cônego (o conto), não compreendera que seu cérebro era outro. Tinha cérebro raivoso e desatento para minúcias eruditas.

Antes do marco profetizado no ano de 2222, atentar-me-ei para o velho estilo metafísico e regozijarei os versos antigos do estilo esquecido pelo coletivo até mesmo, por vezes, em hábitos acadêmicos – reclamo sarau e ode à obra ainda não traduzida em todas as línguas.

– Mas donde vinha tanta fúria do leitor de agora?

– Foi dito que as palavras têm suas divergências e convergências sexuais. A explicação da descoberta psico-léxico-lógica a demonstrou. Porém, as palavras também podem ser reprimidas, enclausuradas e abusadas. O grêmio colérico pratica amiudadamente tal sadismo – há grêmios destarte também em solo santo. Apesar disso, não há outro caminho senão retornarem à luz como água que infiltra e acha sua saída. O inconsciente não é rígido, mas fluido. Confesse, minha senhora, não entendeu nada da primeira vez e agora novamente.

– Confesso que não.

– Pois voltemos à cabeça do Cônego. As palavras continuavam procurando umas às outras, não à maneira de qualquer pessoa do século de outrora, mas em cabeça de padre. Não foi?

– Pois sim.

– Porém, dos tempos idos para cá, a amarração do inconsciente do sacerdote não previra o que somente Jung notaria anos depois: a repulsão provocada por aqueles grupos de ideias, os quais delimitavam a maneira dos silogismos. Esta tornou-se forte como um ímã monotônico. Tecerei adiante.

O ímã em questão é tão mais forte quanto o ressentimento coletivo. A mais alta arrebatadora e vil moção a qualquer substantivo é transformar seu adjetivo em teoria absoluta. Um escárnio para os qualitativos termos tão bem tratados por Bardo de Avon ou mesmo o Cônego. O ímã se dá pelo acoplamento de outro substantivo cuja sua autotransformação em sufixo empacota os adjetivos, comprimindo-os e os impedindo que possuam qualquer liberdade inconsciente. O que seria do cérebro do cônego se fisgado pela percepção da existência desse ímã? Teria desistido de se formar na sacristia?

Duzentos anos antes da marca promissora, porém, o inconsciente não entendido, embora proferido, constrói os embargos. Podemos batizar provisoriamente com o nome de psicologismo. Em sequência ao idílio psíquico anterior, esse é o encontro das palavras dentro da estrutura inconsciente dos estudos da psicologia. Não se misturam palavras da agricultura [exempli gratia] aqui – disse o inconsciente agrícola, batizemo-lo de ‘agriculturismo’.

O leitor do conto, porém, não se dava ao cânone eclesiástico ou à psicologia, nem mesmo à agricultura. Fora forjado em forno termodinâmico. Daqueles que se conservam energia e aumentam a entropia. Zombava de sua patota e estragava jantares evidenciando o seu ismo sádico – ‘engenheirismo’, chamemo-lo assim.

Ismo contra ismo, cada adjetivo procura não mais um substantivo a se apaixonar, mas a acalentadora aprovação do grêmio associado. Como se Sílvia e Sílvio não fossem mais amantes, perdessem a intimidade e impossibilitados a usar ismo alheio. O pesar da inconsciência enjaulada rebate. Qualquer amarração diversa do passado, presente ou futuro, magoa-se por junções de um cérebro circunscrito pelo logos autorizado. Quem autorizou? Não importa. Tal como a sombra da estátua de sal – mulher de Ló – que buscou no passado e o passado lhe prendeu, hoje, o remédio do grêmio são as estátuas abaixo!

– Por ora, sei que não acreditas em nada do que Machado escreveu, nem mesmo o que vim dizer. Di-lo-ei, contudo, a despeito da tua pouca fé, porque o dia da conversão pública há de chegar.

FIM

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O Cônego ou Metafísica do Estilo, por Machado de Assis https://queroserfilosofo.com.br/o-conego-ou-metafisica-do-estilo-por-machado-de-assis/ https://queroserfilosofo.com.br/o-conego-ou-metafisica-do-estilo-por-machado-de-assis/#respond Mon, 22 Jun 2020 22:49:23 +0000 https://www.queroserfilosofo.com.br/?p=605 — “VEM DO LÍBANO, esposa minha, vem do Líbano, vem… As mandrágoras, deram o seu cheiro. Temos às nossas portas toda casta de pombos…” — “Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém, que se encontrardes o meu amado, lhe façais saber que estou enferma de amor…” Era assim, com essa melodia do velho drama de Judá, …

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— “VEM DO LÍBANO, esposa minha, vem do Líbano, vem… As mandrágoras, deram o seu cheiro. Temos às nossas portas toda casta de pombos…”

— “Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém, que se encontrardes o meu amado, lhe façais saber que estou enferma de amor…”

Era assim, com essa melodia do velho drama de Judá, que procuravam um ao outro na cabeça do Cônego Matias um substantivo e um adjetivo… Não me interrompas, leitor precipitado; sei que não acreditas em nada do que vou dizer. Di-lo-ei, contudo, a despeito da tua pouca fé, porque o dia da conversão pública há de chegar.

Nesse dia, — cuido que por volta de 2222, — o paradoxo despirá as asas para vestir a japona de uma verdade comum. Então esta página merecerá, mais que favor, apoteose. Hão de traduzi-la em todas as línguas. As academias e institutos farão dela um pequeno livro, para uso dos séculos, papel de bronze, corte-dourado, letras de opala embutidas, e capa de prata fosca. Os governos decretarão que ela seja ensinada nos ginásios e liceus. As filosofias queimarão todas as doutrinas anteriores, ainda as mais definitivas, e abraçarão esta psicologia nova, única verdadeira, e tudo estará acabado. Até lá passarei por tonto, como se vai ver.

Matias, cônego honorário e pregador efetivo, estava compondo um sermão quando começou o idílio psíquico. Tem quarenta anos de idade, e vive entre livros e livros para os lados da Gamboa. Vieram encomendar-lhe o sermão para certa festa próxima; ele que se regalava então com uma grande obra espiritual, chegada no último paquete, recusou o encargo; mas instaram tanto, que aceitou.

— Vossa Reverendíssima faz isto brincando, disse o principal dos festeiros.

Matias sorriu manso e discreto, como devem sorrir os eclesiásticos e os diplomatas. Os festeiros despediram-se com grandes gestos de veneração, e foram anunciar a festa nos jornais, com a declaração de que pregava ao Evangelho o Cônego Matias, “um dos ornamentos do clero brasileiro”. Este “ornamento do clero” tirou ao cônego a vontade de almoçar, quando ele o leu agora de manhã; e só por estar ajustado, é que se meteu a escrever o sermão.

Começou de má vontade, mas no fim de alguns minutos já trabalhava com amor. A inspiração, com os olhos no céu, e a meditação, com os olhos no chão, ficam a um e outro lado do espaldar da cadeira, dizendo ao ouvido do cônego mil cousas místicas e graves. Matias vai escrevendo, ora devagar, ora depressa. As tiras saem-lhe das mãos, animadas e polidas. Algumas trazem poucas emendas ou nenhumas. De repente, indo escrever um
adjetivo, suspende-se; escreve outro e risca-o; mais outro, que não tem melhor fortuna. Aqui é o centro do idílio. Subamos à cabeça do cônego.

Upa! Cá estamos. Custou-te, não, leitor amigo? É para que não acredites nas pessoas que vão ao Corcovado, e dizem que ali a impressão da altura é tal, que o homem fica sendo cousa nenhuma. Opinião pânica e falsa, falsa como Judas e outros diamantes. Não creias tu nisso, leitor amado. Nem Corcovados, nem Himalaias valem muita cousa ao pé da tua cabeça, que os mede. Cá estamos. Olha bem que é a cabeça do cônego. Temos à escolha um ou outro dos hemisférios cerebrais; mas vamos por este, que é onde nascem os substantivos. Os adjetivos nascem no da esquerda. Descoberta minha, que ainda assim não é a principal, mas a base dela, como se vai ver. Sim, meu senhor, os adjetivos nascem de um lado, e os substantivos de outro, e toda a sorte de vocábulos está assim dividida por motivo da diferença sexual…

— Sexual?

Sim, minha senhora, sexual. As palavras têm sexo. Estou acabando a minha grande memória psico-léxico-lógica, em que exponho e demonstro esta descoberta. Palavra tem sexo.

— Mas, então, amam-se umas às outras?

Amam-se umas às outras. E casam-se. O casamento delas é o que chamamos estilo. Senhora minha, confesse que não entendeu nada.

— Confesso que não.

Pois entre aqui também na cabeça do cônego. Estão justamente a suspirar deste lado. Sabe quem é que suspira? É o substantivo de há pouco, o tal que o cônego escreveu no papel, quando suspendeu a pena. Chama por certo adjetivo, que lhe não aparece: “Vem do Líbano, vem…” E fala assim, pois está em cabeça de padre; se fosse de qualquer pessoa do século, a linguagem seria a de Romeu: “Julieta é o sol… ergue-te, lindo sol.” Mas em cérebro eclesiástico, a linguagem é a das Escrituras. Ao cabo, que importam fórmulas? Namorados de Verona ou de Judá falam todos o mesmo idioma, como acontece com o thaler ou o dólar, o florim ou a libra que é tudo o mesmo dinheiro.

Portanto, vamos lá por essas circunvoluções do cérebro eclesiástico, atrás do substantivo que procura o adjetivo. Sílvio chama por Sílvia. Escutai; ao longe parece que suspira também alguma pessoa; é Sílvia que chama por Sílvio.

Ouvem-se agora e procuram-se. Caminho difícil e intrincado que é este de um cérebro tão cheio de cousas velhas e novas! Há aqui um burburinho de idéias, que mal deixa ouvir os chamados de ambos; não percamos de vista o ardente Sílvio, que lá vai, que desce e sobe, escorrega e salta; aqui, para não cair, agarra-se a umas raízes latinas, ali abordoa-se a um salmo, acolá monta num pentâmetro, e vai sempre andando, levado de uma força íntima, a que não pode resistir.

De quando em quando, aparece-lhe alguma dama — adjetivo também — e oferece-lhe as suas graças antigas ou novas; mas, por Deus, não é a mesma, não é a única, a destinada ab eterno para este consórcio. E Sílvio vai andando, à procura da única. Passai, olhos de toda cor, forma de toda casta, cabelos cortados à cabeça do Sol ou da Noite; morrei sem eco, meigas cantilenas suspiradas no eterno violino; Sílvio não pede um amor qualquer, adventício ou anônimo; pede um certo amor nomeado e predestinado.

Agora não te assustes, leitor, não é nada; é o cônego que se levanta, vai à janela, e encosta-se a espairecer do esforço. Lá olha, lá esquece o sermão e o resto. O papagaio em cima do poleiro, ao pé da janela, repete-lhe as palavras do costume e, no terreiro, o pavão enfuna-se todo ao sol da manhã; o próprio sol, reconhecendo o cônego, manda-lhe um dos seus fiéis raios, a cumprimentá-lo. E o raio vem, e pára diante da janela: “Cônego ilustre, aqui venho trazer os recados do sol, meu senhor e pai.” Toda a natureza parece assim bater palmas ao regresso daquele galé do espírito. Ele próprio alegrase, entorna os olhos por esse ar puro, deixa-os ir fartarem-se de verdura e fresquidão, ao som de um passarinho e de um piano; depois fala ao papagaio, chama o jardineiro, assoa-se, esfrega as mãos, encosta-se. Não lhe lembra mais nem Sílvio nem Sílvia.

Mas Sílvio e Sílvia é que se lembram de si. Enquanto o cônego cuida em cousas estranhas, eles prosseguem em busca um do outro, sem que ele saiba nem suspeite nada. Agora, porém, o caminho é escuro. Passamos da consciência para a inconsciência onde se faz a elaboração confusa das idéias, onde as reminiscências dormem ou cochilam. Aqui pulula a vida sem formas, os germens e os detritos, os rudimentos e os sedimentos; é o desvão imenso do espírito. Aqui caíram eles, à procura um do outro, chamando e suspirando. Dê-me a leitora a mão, agarre-se o leitor a mim, e escorreguemos também.

Vasto mundo incógnito. Sílvio e Sílvia rompem por entre embriões e ruínas. Grupos de idéias, deduzindo-se à maneira de silogismos, perdem-se no tumulto de reminiscências da infância e do seminário. Outras idéias, grávidas de idéias, arrastam-se pesadamente, amparadas por outras idéias virgens. Cousas e homens amalgamam-se; Platão traz os óculos de um escrivão da câmara eclesiástica; mandarins de todas as classes distribuem
moedas etruscas e chilenas, livros ingleses e rosas pálidas; tão pálidas, que não parecem as mesmas que a mãe do cônego plantou quando ele era criança. Memórias pias e familiares cruzam-se e confundem-se. Cá estão as vozes remotas da primeira missa; cá estão as cantigas da roça que ele ouvia cantar às pretas, em casa; farrapos de sensações esvaídas, aqui um medo, ali um gosto, acolá um fastio de cousas que vieram cada uma por sua vez, e que ora jazem na grande unidade impalpável e obscura.

— Vem do Líbano, esposa minha…

— Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém…

Ouvem-se cada vez mais perto. Eis aí chegam eles às profundas camadas de teologia, de filosofia, de liturgia, de geografia e de história, lições antigas, noções modernas, tudo à mistura, dogma e sintaxe. Aqui passou a mão panteísta de Spinoza, às escondidas; ali ficou a unhada do Doutor Angélico; mas nada disso é Sílvio nem Sílvia. E eles vão rasgando, levados de uma força íntima, afinidade secreta, através de todos os obstáculos e por cima de todos os abismos. Também os desgostos hão de vir. Pesares sombrios, que não ficaram no coração do cônego, cá estão, à laia de manchas morais, e ao pé deles o reflexo amarelo ou roxo, ou o que quer que seja da dor alheia e universal. Tudo isso vão eles cortando, com a rapidez do amor e do desejo.

Cambaleias, leitor? Não é o mundo que desaba; é o cônego que se sentou agora mesmo. Espaireceu à vontade, tornou à mesa do trabalho, e relê o que
escreveu, para continuar; pega da pena, molha-a, desce-a ao papel, a ver que adjetivo há de anexar ao substantivo.

Justamente agora é que os dous cobiçosos estão mais perto um do outro. As vozes crescem, o entusiasmo cresce, todo o Cântico passa pelos lábios deles, tocados de febre. Frases alegres, anedotas de sacristia, caricaturas, facécias, disparates, aspectos estúrdios, nada os retém, menos ainda os faz sorrir. Vão, vão, o espaço estreita-se. Ficai aí, perfis meio apagados de paspalhões que fizeram rir ao cônego, e que ele inteiramente esqueceu; ficai, rugas extintas, velhas charadas, regras de voltarete, e vós também, células de idéias novas, debuxos de concepções, pó que tens de ser pirâmide, ficai, abalroai, esperai, desesperai, que eles não têm nada convosco. Amam-se e procuram-se.

Procuram-se e acham-se. Enfim, Sílvio achou Sílvia. Viram-se, caíram nos braços um do outro, ofegantes de canseira, mas remidos com a paga. Unem-se, entrelaçam os braços, e regressam palpitando da inconsciência para a consciência. “Quem é esta que sobe do deserto, firmada sobre o seu amado?”, pergunta Sílvio, como no Cântico; e ela, com a mesma lábia erudita, responde-lhe que “é o selo do seu coração”, e que “o amor é tão
valente como a própria morte”.

Nisto, o cônego estremece. O rosto ilumina-se-lhe. A pena cheia de comoção e respeito completa o substantivo com o adjetivo. Sílvia caminhará agora ao pé de Sílvio, no sermão que o cônego vai pregar um dia destes, e irão juntinhos ao prelo, se ele coligir os seus escritos, o que não se sabe.

FIM


Fonte:
ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro http://www.bibvirt.futuro.usp.br
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por:
Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística
(http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/literat.html)

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Cinco Minutos de Filosofia do Direito, por Gustav Radbruch https://queroserfilosofo.com.br/cinco-minutos-de-filosofia-do-direito-por-gustav-radbruch/ https://queroserfilosofo.com.br/cinco-minutos-de-filosofia-do-direito-por-gustav-radbruch/#respond Mon, 07 Oct 2019 11:19:42 +0000 https://www.queroserfilosofo.com.br/?p=494 Circular enviada pelo jurista alemão Gustav Radbruch aos seus alunos em Heildelberg logo após o fim da Segunda Guerra.

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Gustav Radbruch, Cinco Minutos de Filosofia do Direito, in: Jornal Rhein Neckar, de 12/09/1945, citado após a reimpressão in: Idem, Filosofia do Direito, 8ª edição, ed. por Erik Wolf e Hans-Peter Schneider, Stuttgart 1973, p. 327 e segs.:

Primeiro Minuto

Ordens são ordens, é a lei do soldado. A lei é a lei, diz o jurista. No entanto, ao passo que para o soldado a obrigação e o dever da obediência cessam quando ele souber que a ordem recebida visa a prática de um crime, o jurista […] não conhece exceções deste gênero à validade das leis nem ao preceito de obediência que os cidadãos lhes devem. A lei vale por ser lei, e é lei sempre que, na generalidade dos casos, tiver do seu lado a força para se impor.

Gustav Radbruch, Fünf Minuten Rechtsphilosophie, in: Rhein-Neckar-Zeitung vom 12.9.1945, zitiert nach dem Neuabdruck in: ders., Rechtsphilosophie, 8. Aufl., hrsgg. von Erik Wolf und Hans-Peter Schneider, Stuttgart 1973, S. 327 ff.:

Erste Minute

Befehl ist Befehl, heißt es für den Soldaten. Gesetz ist Gesetz, sagt der Jurist. Während aber für den Soldaten Pflicht und Recht zum Gehorsam aufhören, wenn er weiß, daß der Befehl ein Verbrechen oder ein Vergehen bezweckt, kennt der Jurist, seit vor etwa hundert Jahren die letzten Naturrechtler unter den Juristen ausgestorben sind, keine solche Ausnahmen von der Geltung des Gesetzes und vom Gehorsam der Untertanen des Gesetzes. Das Gesetz gilt, weil es Gesetz ist, und es ist Gesetz, wenn es in der Regel der Fälle die Macht hat, sich durchzusetzen.

Esta concepção da lei e sua validade, a que chamamos Positivismo, foi a que deixou sem defesa e os juristas contra as leis mais arbitrárias, mais cruéis e mais criminosas. Torna equivalentes, em última análise, o direito e a força, levando a crer que só onde estiver a segunda estará também o primeiro.

Diese Auffassung vom Gesetz und seiner Geltung (wir nennen sie die positivistische Lehre) hat die Juristen wie das Volk wehrlos gemacht gegen noch so willkürliche, noch so grausame, noch so verbrecherische Gesetze. Sie setzt letzten Endes das Recht der Macht gleich, nur wo die Macht ist, ist das Recht.

Segundo Minuto

Pretendeu-se completar, ou antes, substituir este princípio por este outro: direito é aquilo que for útil ao povo.

Zweite Minute

Man hat diesen Satz durch einen anderen Satz ergänzen oder ersetzen wollen: Recht ist, was dem Volke nützt.

Isto quer dizer: arbítrio, violação de tratados, ilegalidade serão direito desde que sejam vantajosos para o povo. Ou melhor: praticamente aquilo que os detentores do poder do Estado julgarem conveniente para o bem comum, o capricho do déspota, a pena decretada sem lei ou sentença anterior, o assassínio ilegal de doentes, serão direito. E pode até significar ainda: o bem particular dos governantes passará por bem comum de todos. Desta maneira, a identificação do direito com um suposto ou invocado bem da comunidade, transforma um Estado-de-Direito num Estado-contra-o-Direito

Das heißt: Willkür, Vertragsbruch, Gesetzwidrigkeit sind, sofern sie nur dem Volke nützen, Recht. Das heißt praktisch: was den Inhaber der Staatsgewalt gemeinnützig dünkt, jeder Einfall und jede Laune des Despoten, Strafe ohne Gesetz und Urteil, gesetzloser Mord an Kranken sind Recht. Das kann heißen: der Eigennutz der Herrschenden wird als Gemeinnutz angesehen. Und so hat die Gleichsetzung von Recht und vermeintlichem oder angeblichem Volksnutzen einen Rechtsstaat in einen Unrechtsstaat verwandelt.

Não, não deve dizer-se: tudo o que for útil ao povo é direito; mas, ao invés: só o que dor direito será útil e proveitoso para o povo.

Nein, es hat nicht zu heißen: alles was dem Volke nützt, ist Recht, vielmehr umgekehrt: nur was Recht ist, nützt dem Volke.

Terceiro Minuto

Direito quer dizer o mesmo que vontade e desejo de Justiça. Justiça, porém, significa: julgar sem consideração de pessoas; medir todos pelo mesmo metro.

Dritte Minute

Recht ist Wille zur Gerechtigkeit. Gerechtigkeit aber heißt: ohne Ansehen der Person richten, an gleichem Maße alle messen.

Quando se aprova o assassínio de adversários políticos e se ordena o de pessoas de outra raça, ao mesmo tempo que acto idêntico é punido com as penas mais cruéis e afrontosa se praticado contra correlegionários, isso é a negação do direito e da justiça.

Wenn die Ermordung politischer Gegner geehrt, der Mord am Andersrassigen geboten, die gleiche Tat gegen die eigenen Gesinnungsgenossen aber mit den grausamsten, entehrendsten Strafen geahndet wird, so ist das weder Gerechtigkeit noch Recht.

Quando as leis conscientemente desmentem essa vontade e desejo de justiça, como quando arbitrariamente concedem ou negam a certos homens os direitos naturais da pessoa humana, então carecerão tais leis de qualquer validade, o povo não lhes deverá obediência, e os juristas deverão ser os primeiros a recusar-lhes o carácter de jurídicas.

Wenn Gesetze den Willen zur Gerechtigkeit bewußt verleugnen, z. B. Menschenrechte Menschen nach Willkür gewähren und versagen, dann fehlt diesen Gesetzen die Geltung, dann schuldet das Volk ihnen keinen Gehorsam, dann müssen auch die Juristen den Mut finden, ihnen den Rechtscharakter abzusprechen.

Quarto Minuto

Certamente, ao lado da justiça o bem comum é também um dos fins do direito. Certamente, a lei, mesmo quando é má, conserva ainda um valor: o valor de garantir a segurança do direito perante situações duvidosas. Certamente, a imperfeição humana não consente que sempre e em todos os casos se combinem harmoniosamente nas leis os três valores que todo o direito deve servir: o bem comum, a segurança jurídica e a justiça. Será, muitas vezes, necessário ponderar se a uma lei má, nociva ou injusta, deverá reconhecerse validade por amor da segurança do direito; ou se, por virtude da sua nocividade ou injustiça, tal validade lhe deve ser recusada. Mas uma coisa há que deve estar profundamente na consciência do povo e de todos os juristas: pode haver leis tais, com um grau de injustiça e de nocividade para o bem comum, que toda a validade e até carácter de jurídicas não poderão jamais deixar de lhes ser negadas.

Vierte Minute

Gewiß, neben der Gerechtigkeit ist auch der Gemeinnutz ein Ziel des Rechts. Gewiß, auch das Gesetz als solches, sogar das schlechte Gesetz, hat noch immer einen Wert – den Wert, das Recht Zweifeln gegenüber sicherzustellen. Gewiß, menschliche Unvollkommenheit läßt im Gesetze nicht immer alle drei Werte des Rechts: Gemeinnutz, Rechtssicherheit und Gerechtig– 94 – keit, sich harmonisch vereinigen, und es bleibt dann nur übrig abzuwägen, ob dem schlechten, dem schädlichen oder ungerechten Gesetze um der Rechtssicherheit willen dennoch Geltung zuzusprechen, oder um seiner Ungerechtigkeit oder Gemeinschädlichkeit willen die Geltung zu versagen sei. Das aber muß sich dem Bewußtsein des Volkes und der Juristen tief einprägen: es kann Gesetze mit einem solchen Maße von Ungerechtigkeit und Gemeinschädlichkeit geben, daß ihnen die Geltung, ja der Rechtscharakter abgesprochen werden muß.

Quinto Minuto

Há também princípios fundamentais de direito que são mais fortes do que qualquer preceito jurídico positivo, de tal modo que toda a lei que os contrarie não poderá deixar de ser privada de validade. Há quem lhes chame direito natural e quem lhes chame direito racional. Sem dúvida, tais princípios acham-se, no seu pormenor, envoltos em grandes dúvidas. Contudo, o esforço de séculos conseguiu extrair deles um núcleo seguro e fixo, que reuniu nas chamadas declarações dos direitos do homem e do cidadão, e fê-lo com um consentimento de tal modo universal que, com relação a muitos deles, só um sistemático cepticismo poderá ainda levantar quaisquer dúvidas.

Fünfte Minute

Es gibt also Rechtsgrundsätze, die stärker sind als jede rechtliche Satzung, so daß ein Gesetz, das ihnen widerspricht, der Geltung bar ist. Man nennt diese Grundsätze das Naturrecht oder das Vernunftrecht. Gewiß sind sie im Einzelnen von manchem Zweifel umgeben, aber die Arbeit der Jahrhunderte hat doch einen festen Bestand herausgearbeitet, und in den sogenannten Erklärungen der Menschen- und Bürgerrechte mit so weitreichender Übereinstimmunggesammelt, daß in Hinsicht auf manche von ihnen nur noch gewollte Skepsis den Zweifel aufrechterhalten kann.

Na linguagem da fé religiosa estes mesmos pensamentos acham-se expressos em duas passagens do Novo Testamento. Está escrito numa delas (S. Paulo, Aos Romanos, 3, 1): “deveis obediência à autoridade que exerce sobre vós o poder”. Mas numa outra (Atos dos Apóstolos, 5, 29) está escrito também: “deveis mais obediência a Deus do que aos homens”. E não é isto aí, note-se, a expressão dum simples desejo, mas um autêntico princípio jurídico em vigor. Poderia tentar-se resolver o conflito entre estas duas passagens, é certo, por meio de uma terceira, também do Evangelho, que nos diz: “dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César”. Tal solução é, porém, impossível. Esta última sentença deixa-nos igualmente na dúvida sobre as fronteiras que separam os dois poderes. Mais: ela deixa afinal a decisão à voz de Deus, àquela voz que só nos fala á consciência em face de cada caso concreto.

In der Sprache des Glaubens aber sind die gleichen Gedanken in zwei Bibelworten niedergelegt. Es steht einerseits geschrieben: Ihr sollt gehorsam sein der Obrigkeit, die Gewalt über euch hat. Geschrieben steht | aber andererseits auch: ihr sollt Gott mehr gehorchen als den Menschen – und das ist nicht etwa nur ein frommer Wunsch, sondern ein geltender Rechtssatz. Die Spannung aber zwischen diesen beiden Worten kann man nicht durch ein drittes lösen, etwa durch den Spruch: Gebet dem Kaiser was des Kaisers und Gott was Gottes ist –, denn auch dieses Wort läßt die Grenzen im Zweifel. Vielmehr: es überläßt die Lösung der Stimme Gottes, welche nur angesichts des besonderen Falles im Gewissen des Einzelnen zu ihm spricht.

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Fixação Burlesca https://queroserfilosofo.com.br/fixacao-burlesca/ https://queroserfilosofo.com.br/fixacao-burlesca/#respond Fri, 17 May 2019 10:07:25 +0000 https://www.queroserfilosofo.com.br/?p=422 As coisas não iam bem para a Joyce e a Selma. Um orçamento apertado, negócio capengando e o fluxo de caixa no vermelho. Realmente o cenário assustava. Mas elas não poderiam se deixar abater e continuavam a colocar toda sua energia na sociedade empresária. Irmãs e muito amigas, as duas sempre davam muita força uma …

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As coisas não iam bem para a Joyce e a Selma. Um orçamento apertado, negócio capengando e o fluxo de caixa no vermelho. Realmente o cenário assustava. Mas elas não poderiam se deixar abater e continuavam a colocar toda sua energia na sociedade empresária.

Irmãs e muito amigas, as duas sempre davam muita força uma a outra e, mesmo nos momentos mais difíceis, a consciência emocional era sempre a chave fundamental no papel de apaziguar e não deixar que brigas por motivos fúteis fizessem o império da consultoria educacional construído pelas duas ruir.

O modelo de negócio consistia em uma consultoria para escolas privadas, que atendiam principalmente as classes C e D, com objetivo de alavancar seus negócios utilizando um sistema de financiamento governamental que existia na época. Marketing, contabilidade e todo o esquema para fazer aquele dinheiro público sair dos cofres do governo para o caixa da escola, via endividamento do estudante e deixando para elas uma boa margem na taxa de eficiência acordada.

Tudo lícito e honesto até aqui. A fatia do bolo costumava a ser gorda. Até que a economia do país começou a não ir tão bem. Tempos antes, o governo se posicionou keynesianamente fomentando a economia em vários setores. Hipotecavam as hipotecas. Passou de algo que era uma maravilha, até o colapso inevitável que começou a bater a porta.

Em uma viagem a uma cidade vizinha para atender mais uma empresa, as irmãs seguiam tranquilamente pela estrada quase deserta. Elas haviam pegado um caminho alternativo para fugir do trânsito. Mas como quase toda história de terror (ainda que essa seja burlesca) o pior aconteceu!

Ao fazerem uma curva, Joyce, que estava ao volante, até que tentou evitar o acidente que seria provocado por um caminhão invadindo a pista na contra mão. O carro rodou 3 ou 4 vezes e capotou – não me lembro! – disse Joyce ao acordar na maca e continuou:

– Onde estou?

O médico respondeu enquanto era empurrada por um enfermeiro alto, negro e forte:

– Você está saindo do bloco cirúrgico – disse o médico friamente seguido de um silêncio como quem preparava a pior notícia. Acompanhado por uma enfermeira com uma prancheta na mão e com ares de preocupação, continuou sem rodeios – tivemos que amputar seu braço e sua irmã Selma não resistiu.

Como quem via o mundo desabar, Joyce sentiu-se sem chão. Além de não sentir muito mais nada por conta da anestesia que ainda estava fazendo efeito.

Em outro lugar, na delegacia, o motorista do caminhão, que foi identificado por testemunhas do acidente, se deu mal. Anos mais tarde ele pegou 9 anos de cana por dirigir bêbado. Um para cada dedo da mão (ele não possuía o dedo mindinho). A pena foi aumentada em segunda instância.

Luís da Silva, o Mula, como era conhecido, era considerado um dos melhores caminhoneiros da história das estradas, pois fez entregas mais rápidas e eficientes como nunca antes da história desse pais alguém já tinha feito. O Mula transportava muito rápido e era ótimo no que fazia, mas além do hábito de uma cachaça da boa, ele era também famoso por se vangloriar de seus atos. Vendia seu trabalho muitas vezes supervalorizando-o, mesmo quando outros motoristas mais antigos é que haviam indicado o caminho.

Ele não era perfeito e, por conta da cachaça, errou naquela curva. Fodeu com a vida da Joyce e da Selma, principalmente da Joyce, que ficou viva para sofrer a perda da irmã, do braço e do carro, que estava sem seguro devido à crise que elas estavam passando.

Mas Joyce era guerreira e não desistia nunca. Tinha a oportunidade de recomeçar uma vida nova, pois foi eleita deputada por toda sua história comovente e motivadora. Mas acredite, mesmo depois de tudo que sofreu, Joyce, sem carro, sem braço, sem irmã e com essa oportunidade na mão, não pensava em mais nada na vida, pois estava fixada em dizer:

– MAS E O CAMINHONEIRO?!

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Quem deveria se comprometer politicamente? https://queroserfilosofo.com.br/quem-deveria-se-comprometer-politicamente/ https://queroserfilosofo.com.br/quem-deveria-se-comprometer-politicamente/#respond Wed, 20 Mar 2019 01:47:37 +0000 https://www.queroserfilosofo.com.br/?p=357 Há um equívoco muito grande que acontece em alguns países quando se trata de política. Estou me referindo à polarização que é de tal maneira estruturada que revela o caráter patológico do fenômeno, onde algumas atitudes dos agentes podem ser considerados como “um erro”. Antes que comecem a me fazer típicas perguntas provenientes da pedagogia, …

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Há um equívoco muito grande que acontece em alguns países quando se trata de política. Estou me referindo à polarização que é de tal maneira estruturada que revela o caráter patológico do fenômeno, onde algumas atitudes dos agentes podem ser considerados como “um erro”.

Antes que comecem a me fazer típicas perguntas provenientes da pedagogia, perguntas tais como “erro para quem?”, adianto que minha perspectiva sobre o problema que lançarei mão é totalmente vista por fora desse espectro dicotômico. Portanto, não tenho a pretensão de mudar a realidade, me metendo ser uma espécie de engenheiro social de gabinete. Apenas denunciar um erro.

Para fazer isso me apoiarei em um filósofo e cientista político chamado Jason Brennan, mais especificadamente em um conceito que aparece em sua obra Against Democracy (Contra a democracia, em uma tradução livre).

Brennan divide os eleitores em três categorias, quais sejam: Hobbits, Hoooligans e Vulcans. Naturalmente, assim como a maioria das categorizações, se trata de uma generalização. Mesmo de tal modo, podemos identificar facilmente as matizes da escala dessas três categorias a nossa volta – inclusive em nós mesmos, caso tenhamos a honestidade necessária e suficiente para fazê-lo.

Os Hobbits

Os Hobbits correspondem a maior parcela dos eleitores. São pessoas comuns em suas vidas ordinárias, onde suas maiores preocupações passam longe da batalha política. Por esse motivo, entendem que sua magnitude no debate é irrelevante e, assim, não se dispõem do comprometimento de seu tempo para estar a par da realidade política de seu país.

Hobbits, portanto, são os ignorantes no sentido estrito da palavra, não pejorativo, pois ignora os fatos. Há mais coisa a se fazer do que perder tempo e sacrificar relacionamentos pela causa política. Muitos boletos para pagar, filhos para criar, carreiras para seguir e a novela para não ficar de fora do círculo de conversas triviais.

Dessa forma, esse tipo de eleitor define seu voto de acordo com…

Os Hooligans

Os Hooligans, por sua vez, tendem a possuir mais informação sobre a realidade política do que os Hobbits, no entanto, segundo Brennan, esse tipo de eleitor possui um viés ou tendência cognitiva ao filtrar as informações.

Se o atentado é contra seu candidato, esse tipo de eleitor tende a afirmar que foi um golpe; se é contra o candidato adversário, a tendência é que o discurso caminhe para legitimação da democracia. A característica central desse tipo de eleitor, segundo o filósofo, é a distorção perceptiva e julgamento pouco apurado, frequentemente baseado em interpretação ilógica quando da tentativa de uma melhor argumentação.

Importante perceber que esse tipo de comportamento é totalmente independente da ideologia escolhida por esse eleitor, o qual se vale de suas emoções e age tal qual um fan boy na disputa de qual console é melhor, Xbox ou Playstation; ou querelas como Marvel vs. DC Comics ou Messi vs. Cristiano Ronaldo (Pelé vs. Maradona para os mais saudosistas). Isso, o Hooligan é o militante apaixonado!

Diferente dos…

Os Vulcans

Vulcans, ao contrário dos Hooligans, procuram retirar sua paixão do espectro político ao realizar sua análise. É o tipo de eleitor que analisa o fato pelo fato e, não pela sua convicção pré-estabelecida. Dos três, portanto, é o mais bem informado, mas o de menor expressão e influência, pois são poucas as pessoas que se propõem a despender de seu tempo para tal.

Por ser desapaixonado, frequentemente esse tipo de eleitor, mesmo com suas preferências eleitorais, analisam as pautas com independência partidária e tende a olhar para as movimentações e negociações políticas com ceticismo.

Vulcans combinam um vasto conhecimento com uma análise sofisticada, além de manter a mente aberta para possibilidades de fatos e argumentos supervenientes a seus julgamentos. Por esse motivo, seu objetivo é a acuracidade do seu juízo baseado cem por cento na racionalidade em detrimento da defesa de uma posição prévia.

O problema

Diante dessa base inferida da obra de Brennan, coloco a questão-chave para esse artigo: quem deve se comprometer com os discursos ideológicos, o eleitor ou o político?

O ambiente normativo é um ambiente de dar e receber razões. Naturalmente ao asserir algo, nos comprometemos com a validade das proposições enunciadas, nos expondo à validação, correção, etc.

Então, caso você já tenha entendido onde eu pretendo chegar e tente argumentar que são os dois agentes que têm o dever de compromisso político, eu faço uma pequena intervenção em seu ponto de vista questionando se o comprometimento do eleitor não deveria se restringir ao voto e não com a caixinha ideológica que se torna o discurso partidário.

A questão, portanto, não é se o eleitor deve se comprometer, mas, sim, com o quê e como o eleitor deve se comprometer.

Para exemplificar

Não é de espantar (quase) ninguém que existam pessoas que sejam a favor da liberação de armas e também da legalização do aborto, por exemplo. Também há aqueles contra o armamento da população e contra a legalização do aborto. Podemos notar, ainda, que ambos exemplares de eleitores podem defender suas respectivas causas pelos mesmos princípios.

Ao analisar a multiplicidade de variáveis e pautas morais, econômicas e políticas mundiais, nacionais e regionais possíveis no mundo, muito provavelmente, caso a análise seja minuciosa o bastante, descobriremos que o número de pautas únicas se igualam ao número de habitantes terrestres. Porém, para efeitos práticos é contraproducente não se organizar em grupos.

A polarização política é exatamente a organização em dois grandes grupos. Por um lado, uma polarização política forte, pode até ter seu ponto positivo como argumentam alguns autores, incentivando o debate político. No entanto, meu ponto entra exatamente aqui: por qual motivo deveríamos nos posicionar em relação aos políticos em prejuízo as nossas próprias pautas?

Os políticos são necessariamente os que se devem se comprometer com o que é dito (principalmente em campanha) por eles próprios. O eleitor não tem necessidade nenhuma em se comprometer com o que o político diz. Ao final das contas, a polarização empobrece o discurso político e serve, principalmente, para que os agentes da política (políticos, mídia, empresas, etc.) manobrem as massas de acordo com seus interesses.

Caso não tivéssemos o impulso apaixonado de defender um “mito” ou uma “ideia”, não estaríamos comprometidos em denunciar os agravos cometidos pelos políticos, mesmo votando neles. Permaneceríamos livres para escolher votar em quem quiséssemos, baseado em um discurso sobre as pautas e não nas cores das bandeiras.

O erro, portanto, está em escolher e analisar, não o contrário. Que por sinal, é o oposto ao lema desse site. E respondendo aos pedagogos, entender essas questões de erros comportamentais é interessante para o amadurecimento da sociedade, afinal militar com um viés de cognição, além de ser uma grande desonestidade intelectual, sempre será um erro lógico.

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Uma carta aberta ao Brasil, por Mark Manson https://queroserfilosofo.com.br/uma-carta-aberta-ao-brasil/ https://queroserfilosofo.com.br/uma-carta-aberta-ao-brasil/#respond Mon, 18 Mar 2019 12:36:36 +0000 https://www.queroserfilosofo.com.br/?p=335 Querido Brasil, O Carnaval acabou. O “ano novo” finalmente vai começar e eu estou te deixando para voltar para o meu país. Assim como vários outros gringos, eu também vim para cá pela primeira vez em busca de festas, lindas praias e garotas. O que eu não poderia imaginar é que eu passaria a maior …

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Querido Brasil,

O Carnaval acabou. O “ano novo” finalmente vai começar e eu estou te deixando para voltar para o meu país.

Assim como vários outros gringos, eu também vim para cá pela primeira vez em busca de festas, lindas praias e garotas. O que eu não poderia imaginar é que eu passaria a maior parte dos 4 últimos anos dentro das suas fronteiras. Aprenderia muito sobre a sua cultura, sua língua, seus costumes e que, no final deste ano, eu me casaria com uma de suas garotas.

Não é segredo para ninguém que você está passando por alguns problemas. Existe uma crise política, econômica, problemas constantes em relação à segurança, uma enorme desigualdade social e agora, com uma possível epidemia do Zika vírus, uma crise ainda maior na saúde.

Durante esse tempo em que estive aqui, eu conheci muitos brasileiros que me perguntavam: “Por que? Por que o Brasil é tão ferrado? Por que os países na Europa e América do Norte são prósperos e seguros enquanto o Brasil continua nesses altos e baixos entre crises década sim, década não?”

No passado, eu tinha muitas teorias sobre o sistema de governo, sobre o colonialismo, políticas econômicas, etc. Mas recentemente eu cheguei a uma conclusão. Muita gente provavelmente vai achar essa minha conclusão meio ofensiva, mas depois de trocar várias ideias com alguns dos meus amigos, eles me encorajaram a dividir o que eu acho com todos os outros brasileiros.

Então aí vai: é você.

Você é o problema.

Sim, você mesmo que está lendo esse texto. Você é parte do problema. Eu tenho certeza de não é proposital, mas você não só é parte, como está perpetuando o problema todos os dias.

Não é só culpa da Dilma ou do PT. Não é só culpa dos bancos, da iniciativa privada, do escândalo da Petrobras, do aumento do dólar ou da desvalorização do Real.

O problema é a cultura. São as crenças e a mentalidade que fazem parte da fundação do país e são responsáveis pela forma com que os brasileiros escolhem viver as suas vidas e construir uma sociedade.

O problema é tudo aquilo que você e todo mundo a sua volta decidiu aceitar como parte de “ser brasileiro” mesmo que isso não esteja certo.

Quer um exemplo?

Imagine que você está de carona no carro de um amigo tarde da noite. Vocês passam por uma rua escura e totalmente vazia. O papo está bom e ele não está prestando muita atenção quando, de repente, ele arranca o retrovisor de um carro super caro. Antes que alguém veja, ele acelera e vai embora.

No dia seguinte, você ouve um colega de trabalho que você mal conhece dizendo que deixou o carro estacionado na rua na noite anterior e ele amanheceu sem o retrovisor. Pela descrição, você descobre que é o mesmo carro que seu brother bateu “sem querer”. O que você faz?

A) Fica quieto e finge que não sabe de nada para proteger seu amigo? Ou
B) Diz para o cara que sente muito e força o seu amigo a assumir a responsabilidade pelo erro?

Eu acredito que a maioria dos brasileiros escolheria a alternativa A. Eu também acredito que a maioria dos gringos escolheria a alternativa B.

Nos países mais desenvolvidos o senso de justiça e responsabilidade é mais importante do que qualquer indivíduo. Há uma consciência social onde o todo é mais importante do que o bem-estar de um só. E por ser um dos principais pilares de uma sociedade que funciona, ignorar isso é uma forma de egoísmo.

Eu percebo que vocês brasileiros são solidários, se sacrificam e fazem de tudo por suas famílias e amigos mais próximos e, por isso, não se consideram egoístas.

Mas, infelizmente, eu também acredito que grande parte dos brasileiros seja extremamente egoísta, já que priorizar a família e os amigos mais próximos em detrimento de outros membros da sociedade é uma forma de egoísmo.

Sabe todos aqueles políticos, empresários, policiais e sindicalistas corruptos? Você já parou para pensar por que eles são corruptos? Eu garanto que quase todos eles justificam suas mentiras e falcatruas dizendo: “Eu faço isso pela minha família”. Eles querem dar uma vida melhor para seus parentes, querem que seus filhos estudem em escolas melhores e querem viver com mais segurança.

É curioso ver que quando um brasileiro prejudica outro cidadão para beneficiar sua famílias, ele se acha altruísta. Ele não percebe que altruísmo é abrir mão dos próprios interesses para beneficiar um estranho se for para o bem da sociedade como um todo.

Além disso, seu povo também é muito vaidoso, Brasil. Eu fiquei surpreso quando descobri que dizer que alguém é vaidoso por aqui não é considerado um insulto como é nos Estados Unidos. Esta é uma outra característica particular da sua cultura.

Algumas semanas atrás, eu e minha noiva viajamos para um famoso vilarejo no nordeste. Chegando lá, as praias não eram bonitas como imaginávamos e ainda estavam sujas. Um dos pontos turísticos mais famosos era uma pedra que de perto não tinha nada demais. Foi decepcionante.

Quando contamos para as pessoas sobre a nossa percepção, algumas delas imediatamente disseram: “Ah, pelo menos você pode ver e tirar algumas fotos nos pontos turísticos, né?”

Parece uma frase inocente, mas ela ilustra bem essa questão da vaidade: as pessoas por aqui estão muito mais preocupadas com as aparências do que com quem eles realmente são.

É claro que aqui não é o único lugar no mundo onde isso acontece, mas é muito mais comum do que em qualquer outro país onde eu já estive.

Isso explica porque os brasileiros ricos não se importam em pagar três vezes mais por uma roupa de grife ou uma jóia do que deveriam, ou contratam empregadas e babás para fazerem um trabalho que poderia ser feito por eles. É uma forma de se sentirem especiais e parecerem mais ricos. Também é por isso que brasileiros pagam tudo parcelado. Porque eles querem sentir e mostrar que eles podem ter aquela super TV mesmo quando, na realidade, eles não tenham dinheiro para pagar. No fim das contas, esse é o motivo pelo qual um brasileiro que nasceu pobre e sem oportunidades está disposto a matar por causa de uma motocicleta ou sequestrar alguém por algumas centenas de Reais. Eles também querem parecer bem sucedidos, mesmo que não contribuam com a sociedade para merecer isso.

Muitos gringos acham os brasileiros preguiçosos. Eu não concordo. Pelo contrário, os brasileiros tem mais energia do que muita gente em outros lugares do mundo (vide: Carnaval).

O problema é que muitos focam grande parte da sua energia em vaidade em vez de produtividade. A sensação que se tem é que é mais importante parecer popular ou glamouroso do que fazer algo relevante que traga isso como consequência. É mais importante parecer bem sucedido do que ser bem sucedido de fato.

Vaidade não traz felicidade. Vaidade é uma versão “photoshopada” da felicidade. Parece legal vista de fora, mas não é real e definitivamente não dura muito.

Se você precisa pagar por algo muito mais caro do que deveria custar para se sentir especial, então você não é especial. Se você precisa da aprovação de outras pessoas para se sentir importante, então você não é importante. Se você precisa mentir, puxar o tapete ou trair alguém para se sentir bem sucedido, então você não é bem sucedido. Pode acreditar, os atalhos não funcionam aqui.

E sabe o que é pior? Essa vaidade faz com que seu povo evite bater de frente com os outros. Todo mundo quer ser legal com todo mundo e acaba ou ferrando o outro pelas costas, ou indiretamente só para não gerar confronto.

Por aqui, se alguém está 1h atrasado, todo mundo fica esperando essa pessoa chegar para sair. Se alguém decide ir embora e não esperar, é visto como cuzão. Se alguém na família é irresponsável e fica cheio de dívidas, é meio que esperado que outros membros da família com mais dinheiro ajudem a pessoa a se recuperar. Se alguém num grupo de amigos não quer fazer uma coisa específica, é esperado que todo mundo mude os planos para não deixar esse amigo chateado. Se em uma viagem em grupo alguém decide fazer algo sozinho, este é considerado egoísta.

É sempre mais fácil não confrontar e ser boa praça. Só que onde não existe confronto, não existe progresso.

Como um gringo que geralmente não liga a mínima sobre o que as pessoas pensam de mim, eu acho muito difícil não enxergar tudo isso como uma forma de desrespeito e auto-sabotagem. Em diversas circunstâncias eu acabo assistindo os brasileiros recompensarem as “vítimas” e punirem àqueles que são independentes e bem resolvidos.

Por um lado, quando você recompensa uma pessoa que falhou ou está fazendo algo errado, você está dando a ela um incentivo para nunca precisar melhorar. Na verdade, você faz com que ela fique sempre contando com a boa vontade de alguém em vez de ensina-la a ser responsável.

Por outro lado, quando você pune alguém por ser bem resolvido, você desencoraja pessoas talentosas que poderiam criar o progresso e a inovação que esse país tanto precisa. Você impede que o país saia dessa merda que está e cria ainda mais espaço para líderes medíocres e manipuladores se prolongarem no poder.

E assim, você cria uma sociedade que acredita que o único jeito de se dar bem é traindo, mentindo, sendo corrupto, ou nos piores casos, tirando a vida do outro.

As vezes, a melhor coisa que você pode fazer por um amigo que está sempre atrasado é ir embora sem ele. Isso vai fazer com que ele aprenda a gerenciar o próprio tempo e respeitar o tempo dos outros.

Outras vezes, a melhor coisa que você pode fazer com alguém que gastou mais do que devia e se enfiou em dívidas é deixar que ele fique desesperado por um tempo. Esse é o único jeito que fará com que ele aprenda a ser mais responsável com dinheiro no futuro.

Eu não quero parecer o gringo que sabe tudo, até porque eu não sei. E deus bem sabe o quanto o meu país também está na merda (eu já escrevi aqui sobre o que eu acho dos EUA).

Só que em breve, Brasil, você será parte da minha vida para sempre. Você será parte da minha família. Você será meu amigo. Você será metade do meu filho quando eu tiver um.

E é por isso que eu sinto que preciso dividir isso com você de forma aberta, honesta, com o amor que só um amigo pode falar francamente com outro, mesmo quando sabemos que o que temos a dizer vai doer.

E também porque eu tenho uma má notícia: não vai melhorar tão cedo.

Talvez você já saiba disso, mas se não sabe, eu vou ser aquele que vai te dizer: as coisas não vão melhorar nessa década.

O seu governo não vai conseguir pagar todas as dívidas que ele fez a não ser que mude toda a sua constituição. Os grandes negócios do país pegaram dinheiro demais emprestado quando o dólar estava baixo, lá em 2008-2010 e agora não vão conseguir pagar já que as dívidas dobraram de tamanho. Muitos vão falir por causa disso nos próximos anos e isso vai piorar a crise.

O preço das commodities estão extremamente baixos e não apresentam nenhum sinal de aumento num futuro próximo, isso significa menos dinheiro entrando no país. Sua população não é do tipo que poupa e sim, que se endivida. As taxas de desemprego estão aumentando, assim como os impostos que estrangulam a produtividade da classe trabalhadora.

Você está ferrado. Você pode tirar a Dilma de lá, ou todo o PT. Pode (e deveria) refazer a constituição, mas não vai adiantar. Os erros já foram cometidos anos atrás e agora você vai ter que viver com isso por um tempo.

Se prepare para, no mínimo, 5-10 anos de oportunidades perdidas. Se você é um jovem brasileiro, muito do que você cresceu esperando que fosse conquistar, não vai mais estar disponível. Se você é um adulto nos seus 30 ou 40, os melhores anos da economia já fazem parte do seu passado. Se você tem mais de 50, bem, você já viu esse filme antes, não viu?

É a mesma velha história, só muda a década. A democracia não resolveu o problema. Uma moeda forte não resolveu o problema. Tirar milhares de pessoas da pobreza não resolveu o problema. O problema persiste. E persiste porque ele está na mentalidade das pessoas.

O “jeitinho brasileiro” precisa morrer. Essa vaidade, essa mania de dizer que o Brasil sempre foi assim e não tem mais jeito também precisa morrer. E a única forma de acabar com tudo isso é se cada brasileiro decidir matar isso dentro de si mesmo.

Ao contrário de outras revoluções externas que fazem parte da sua história, essa revolução precisa ser interna. Ela precisa ser resultado de uma vontade que invade o seu coração e sua alma.

Você precisa escolher ver as coisas de um jeito novo. Você precisa definir novos padrões e expectativas para você e para os outros. Você precisa exigir que seu tempo seja respeitado. Você deve esperar das pessoas que te cercam que elas sejam responsabilizadas pelas suas ações. Você precisa priorizar uma sociedade forte e segura acima de todo e qualquer interesse pessoal ou da sua família e amigos. Você precisa deixar que cada um lide com os seus próprios problemas, assim como você não deve esperar que ninguém seja obrigado a lidar com os seus.

Essas são escolhas que precisam ser feitas diariamente. Até que essa revolução interna aconteça, eu temo que seu destino seja repetir os mesmos erros por muitas outras gerações que estão por vir.

Você tem uma alegria que é rara e especial, Brasil. Foi isso que me atraiu em você muitos anos atrás e que me faz sempre voltar. Eu só espero que um dia essa alegria tenha a sociedade que merece.

Seu amigo,

Mark

Traduzido por Fernanda Neute

Carta Publicada em 11 de Fevereiro de 2016
Fonte: markmanson.net

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